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O quê os braços têm a ver com nossa sexualidade?

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Recorte do livro - A Mulher Nua, de Desmond Morris -

12. Braços

Os braços são a parte menos erótica do corpo feminino. Se um homem pensa em tocar uma mulher sem qualquer desejo sexual — para chamar sua atenção, por exemplo, ou guiá-la numa direção —, o melhor ponto é o bra­ço. Qualquer outro ponto seria demasiado íntimo.

Vale lembrar que, em termos evolucionários, os braços humanos são nossas pernas dianteiras. De fato, para qualquer criatura de quatro patas, eles devem parecer um par de pernas inúteis penduradas. Mas, quando nossos ancestrais assumiram a postura ereta apoiados nas pernas traseiras, as pernas dianteiras foram drasticamente aliviadas do peso que carrega­vam e puderam se especializar em múltiplos propósitos manipulativos. Nossas patas dianteiras transformaram-se em sofisticadas garras, e nossas pernas dianteiras tornaram-se seus criados, dotados de uma incrível mo­bilidade.

Os braços têm dupla qualidade: força e precisão. Se as mãos precisam agir com força — para trepar, atirar, golpear, socar —, os fortes músculos do braços, como o bíceps e o tríceps, entram em ação. Se o polegar e os dedos estão trabalhando com delicada precisão, o braço opera como um guindaste móvel, colocando a mão na posição ideal para que a tarefa seja executada.

O braço conta com três ossos: o pesado úmero do braço e o rádio e a ulna (ou cúbito) do antebraço. Esses ossos são visíveis no ombro, no coto­velo e no pulso, mas no resto do braço ficam cobertos pelos músculos. Os dois ossos do antebraço se cruzam quando a mão gira, virando a palma para cima, o que significa que sua posição mais relaxada é a da palma vol­tada para baixo. Para quem não sabe qual é o rádio e qual é a ulna, vale dizer que a ulna é ligeiramente mais delgada e alinha-se com o mindinho, enquanto o rádio é mais espesso e alinha-se com o polegar.

Os principais músculos do braço e os movimentos que eles produzem são os seguintes:

O deltóide é o grande músculo que recobre a articulação do ombro, e sua função é erguer o braço e afastá-lo do corpo lateralmente. O bíceps é o músculo que se situa na parte anterior do braço, e sua função é flexioná-lo. O triceps é o forte músculo que se situa na parte posterior do braço, e sua função é estendê-lo.

O trabalho muscular permite fortificar esses músculos a um grau sur­preendente, como mostram os braços malhados exibidos em competições de fisiculturismo feminino, que dão a impressão de imensa força. Muitos homens afirmam que não os acham atraentes, e a razão disso parece ser o excesso de esforço necessário para desenvolver essa musculatura, o que im­plicaria uma obsessão que beira o narcisismo. Uma campeã de fisicultu­rismo parece estar mais interessada no que vê no espelho do que no corpo de um companheiro masculino.

Outro problema com o braço super-desenvolvido é que ele parece mui­to masculino. Os braços da mulher são mais curtos, mais fracos e mais fi­nos que os do homem, e é inevitável que braços excessivamente desenvol­vidos percam suas qualidades femininas.

O antebraço masculino mais longo é o reflexo de um papel evolutivo: o de atirador c lançador. Por isso, os homens são melhores arremessadores de dardos que as mulheres. O recorde masculino nesse esporte é de 96,72 metros, e o feminino, de 72,40 metros, uma diferença de 33%, muito su­perior à média em eventos desse tipo, que é de 10%,

Outra diferença de gênero diz respeito à articulação do cotovelo. Na mulher, o braço fica naturalmente mais próximo ao tronco. Devido aos ombros mais largos, os braços do homem pendem mais afastados do cor­po. Quando oscilam soltos no espaço, têm um ar muito masculino, mas se um homem prende os braços junto ao corpo, afetando os antebraços, seu corpo parece afeminado. Isso ocorre porque, nas mulheres, o ângulo do co­tovelo é 6 graus maior que o do homem. Portanto, a postura dos braços nos oferece significativos sinais sexuais que não podem ser atribuídos a um condicionamento social.

Se o cotovelo se choca com um objeto duro, ocorre uma ferroada, seguida de uma dor considerável por algum tempo. É o nervo ulnário, que passa pela articulação do cotovelo, que causa a aguilhoada dolorosa e, por um momento, incapacita o braço.

Outro detalhe anatômico do braço que merece menção são as muito amaldiçoadas, muito depiladas e muito desodorizadas axilas. Essa peque­na zona pilosa desempenha um papel químico importante e reflete uma grande mudança nos hábitos sexuais da espécie humana. Quando nossos ancestrais se acasalavam, com a fêmea sobre as quatro patas, as axilas fica­vam afastadas do rosto do parceiro. Quando mais tarde assumimos a pos­tura ereta, e homem e mulher passaram a adotar predominantemente a po­sição sexual frontal, o nariz ficava próximo à região dos ombros. E ali se si­tuavam as axilas, o lugar ideal para o desenvolvimento de glândulas sudo­ríparas. Sua presença é exclusiva da espécie humana, em ambos os sexos.

A mulher possui mais glândulas sudoríparas que o homem, e os odo­res produzidos por um e outro diferem, o que indica que elas atuam como sinais sexuais entre parceiros amorosos. De fato, recentes pesquisas revela­ram que, tendo os olhos vendados, os homens se excitavam mais sexual­mente cheirando o suor da axila da mulher do que com qualquer caro per­fume produzido comercialmente.

Essas glândulas sudoríparas são glândulas apócrinas, e sua secreção é le­vemente mais oleosa do que o suor comum. Elas só se desenvolvem na pu­berdade, quando o surgimento dos hormônios sexuais ativa-as e ao mes­mo tempo provoca o crescimento de pêlos nas axilas. A função dos pêlos é manter as secreções glandulares na região axilar, o que intensifica o si­nal que elas transmitem.

Um velho costume inglês, transmitido de geração a geração, determi­nava que o homem que quisesse seduzir uma mulher usasse um lenço lim­po junto à axila, por baixo da camisa, antes de iniciar a dança. Depois, de­via tirar o lenço e acenar com ele para refrescá-la. Na verdade, o que ele fazia era espalhar o odor de sua glândulas apócrinas na esperança de que ela fosse seduzida por ele.

Na Áustria rural o truque funcionava de maneira diferente. A mulher co­locava uma fatia de maçã sob as axilas enquanto dançava e, quando a música parava, a oferecia ao parceiro. Quando ele comia a maçã, expunha-se automa­ticamente ao aroma sexual da mulher Esse truque também era conhecido na Inglaterra elisabetana, quando uma maçã inteira descascada (conhecida como "maçã do amor") era colocada na axila da mulher até se embeber de seu suor, quando então seria oferecida ao amado, que inalaria sua fragrância.

Mais tarde, no século XVI, o impacto sexual da fragrância das axilas fe­mininas parece ter-se feito sentir na corte francesa. Uma linda princesa, Marie de Clèves, esposa do horroroso príncipe de Condé, sentindo-se aca­lorada depois de uma vigorosa dança na corte, retirou-se para uma das sa­las adjacentes ao salão de baile do Louvre para trocar a camisa molhada de suor. O duque d'Anjou (que logo se tornaria o rei Henrique III da França), que também sofria com o calor, entrou nessa sala e, julgando que a cami­sa de Marie fosse um guardanapo, usou-a para enxugar o rosto suado. De acordo com um cronista da época, seus sentidos foram profundamente afe­tados por esse ato. No momento em que inalou sua fragrância, o duque, que já era admirador secreto da princesa adolescente, foi tomado por uma incontrolável paixão. Com isso, ganhou coragem para quebrar seu silên­cio e confessar a ela seu amor. Nascia uma paixão maldita, que lhe causa­ria muito infortúnio nos anos seguintes.

Considerando a forte indústria que se alimenta da venda de desodoran­tes, essas histórias parecem muito estranhas. Se o ser humano carrega um estímulo sexual tão forte sob os braços, por que se daria tanto trabalho para eliminá-lo lavando, esfregando e desodorizando as axilas e, no caso das mulheres, depilando-as? A resposta está no vestuário. O homem da história do folclore inglês, banhado e usando uma camisa limpa para a dança, produz secreções frescas das glândulas sudoríparas. Embebido ne­las, seu lenço limpo carrega realmente um forte odor sexual. É o sistema primitivo em ação. Infelizmente, hoje, com o corpo coberto de camadas de roupas, nossa pele suada pode se transformar facilmente numa estufa para a propagação de milhões de bactérias. O odor natural do corpo se tor­na mau cheiro. A sensação desagradável que isso nos causa nos faz prefe­rir usar desodorantes do que correr o risco de transformar o que seria um estímulo sexual numa catinga corporal.

Desde o século 1 a.C., o poeta romano Ovídio, em seu livro sobre a se­dução, A arte do amor, advertia as damas de que "carregavam um bode nas axilas".

Pesquisas recentes mostraram que as secreções axilares de homens e mulheres diferem quimicamente e têm um odor que atrai o sexo oposto. Diz-se que a secreção masculina tem um odor almiscarado, resultado do hormônio masculino. Entretanto, em sua forma pura e fresca, as secreções masculinas e femininas não são conscientemente detectadas pelo olfato humano. Elas parecem atuar num nível inconsciente, fazendo-nos sentir o estímulo sem saber bem por quê.

Nem todos os orientais possuem esse sistema glandular. Entre os core­anos, no mínimo metade da população não tem glândulas sudoríparas. Elas também são raras no Japão, onde não se consegue detectar nenhum odor axilar em 90% da população. Na verdade, entre os japoneses, o for­te cheiro nas axilas é visto como uma doença, a osmidrosis axillae. Houve um tempo em que indivíduos que sofriam dessa "doença" eram dispensa­dos do serviço militar. Na China, apenas 2 ou 3% da população têm al­gum odor debaixo dos braços. Devido às diferenças raciais, os orientais ge­ralmente acham o odor natural dos europeus e africanos muito forte e até mesmo ofensivo.

A remoção dos pêlos nas axilas é uma prática relativamente recente, in­troduzida no Ocidente na década de 1920 pela florescente indústria cos­mética. Anúncios diziam às mulheres que, se quisessem ser mais perfuma­das e atraentes, deviam se livrar das "armadilhas de cheiro" que eram os pêlos nas axilas. Em pouco tempo, as mulheres ocidentais aderiram em massa. Hoje, calcula-se que menos de 1% das mulheres rejeite a depila­ção como um procedimento rotineiro.

De vez cm quando ocorre uma fraca rebelião contra esse tipo de "mu­tilação". O famoso guia dos amantes, The Joy of Sex (A alegria do sexo), publicado em 1972, opunha-se fortemente à depilação: "As axilas — um local clássico para beijos. Não devem ser depiladas sob nenhum pretexto". A depilação "podia ser perdoada em locais de clima quente, onde não ha­via água encanada, mas hoje é simplesmente vandalismo ignorante". E acrescentava um curioso conselho: "A axila pode ser usada no lugar da pal­ma da mão para silenciar o parceiro no momento do clímax" — talvez para que o odor das axilas fosse plenamente apreciado.

Não se sabe quantas mulheres podem ter abandonado a depilação de­pois desse conselho, mas parece que o guia sexual acreditava haver uma tendência nesse sentido no início dos anos 1970: "Uma nova geração co­meçou a perceber que é sexy manter os pêlos nas axilas". A julgar pelos fil­mes e pelas fotos publicadas em revistas a partir dessa década, a moda mundial ignorou essa suposta tendência. Recentemente, quando uma famosa atriz de Hollywood ergueu o braço para acenar para a multidão e exibiu uma axila peluda, o fato foi comentado em todas as colunas de fo­foca, que o consideraram repulsivo.

Apesar disso, os últimos anos do século XX assistiram à chegada de uma revista intitulada Hair to Stay (Pêlos para ficar), que se definia como "a única revista do mundo para os que amam as mulheres naturalmente peludas". Entretanto, tinha que admitir que lutava uma batalha difícil: "Nos anos 90, as mulheres que decidem não depilar as axilas são ridicula­rizadas e submetidas a situações constrangedoras. São vistas como lésbi­cas, feministas radicais ou hippies que não saíram dos anos 60". Tudo isso era um erro, afirmava a revista, porque, "de um ponto de vista psicossocial, a remoção dos pêlos é uma revolta contra a sexualidade". Os pêlos das axi­las, dizia, "funcionam como uma antena transmissora, enviando sinais que convidam ao ato sexual". Para pôr mais lenha na fogueira, chegou a afir­mar que, ao exibir uma axila depilada, uma mulher adulta se oferece sim­bolicamente como uma criança e portanto encoraja uma perversão sexual. Convenientemente, a revista não percebia que, com esse argumento, acu­sava os homens que se mantêm bem barbeados de estimular a pedofilia — já que meninos não têm barba.

A verdade é que a remoção dos pêlos faz com que homens e mulheres pareçam mais limpos e mais jovens, ajudando-os a eliminar o cheiro cor­poral. Como a vida moderna, principalmente nos centros urbanos, nos obriga a manter uma excessiva proximidade em situações que nada têm de sensuais, existem motivos de sobra pata eliminar os primitivos sinais sexuais. Por isso, parece provável que a depilação corporal continue a pros­perar, não importa o que digam os rebeldes. Apenas se pudéssemos voltar a uma vida tribal de seminudez seu argumento seria válido.

Voltando à postura dos braços, existem quatro movimentos principais: para baixo, para cima, para o lado e para a frente. A postura de braços abaixados é neutra, e os músculos ficam totalmente relaxados e inativos. Como parte da locomoção bipedal, balançamos os braços quando cami­nhamos, mas, a menos que estejamos participando de um desfile militar, não colocamos nenhum esforço nesse ato. Mesmo depois de uma longa ca­minhada, quando os pés doem e os músculos das pernas estão exaustos, os braços continuam oscilando levemente, descansados e relaxados. Só quan­do os afastamos do corpo eles sentem a tensão do esforço.

A postura de braços erguidos é mais difícil de sustentar por qualquer período de tempo. É um gesto de triunfo e vitória, muito apreciado por políticos e astros do esporte. Com os braços erguidos, eles cumprimentam seus fãs e comemoram uma alta posição com uma postura elevada. Levantar os braços os faz parecer mais altos e mais fortes, e também os tor­na mais visíveis nos momentos em que eles mais desejam ser vistos. Entretanto, a posição não se mantém por mais do que alguns segundos. Se tentarem manter essa postura por horas — ou mesmo por minutos —, logo serão vencidos pelo cansaço.

O gesto ganha um significado totalmente diferente quando um assal­tante com uma arma na mão ordena: "Mãos ao alto!". Nesse caso, os bra­ços se erguem num gesto de defesa, e não de vitória. Entretanto, existe uma sutil diferença na angulação dos braços. Na postura de vitória, os braços em geral se mantêm esticados e, quando se dobram, angulam-se ligeiramente para a frente. Na reação a uma ameaça, os braços se flexionam ligeiramen­te nos cotovelos c se mantêm na posição vertical. A essência dessa postura defensiva é que ela deve mostrar mãos vazias e desarmadas, postadas o mais longe possível do corpo, onde alguma arma pode estar escondida.

A postura de braços abertos é um convite distante ao abraço. Uma mu­lher que aviste um amigo querido a alguns passos de distância abre os bra­ços até poder fechá-los num abraço emocionado. Essa mesma postura é vista depois que uma artista de circo completa um número de grande di­ficuldade. Ele abre os braços, e a platéia imediatamente responde com aplausos. O artista revela o desejo de abraçar o público, que responde com o único gesto que é capaz de realizar de seu lugar na platéia. O gesto de bater palmas é uma forma muito modificada do "abraço no vazio", na qual o sentimento se converte no som de um abraço simbólico.

A postura de braços para a frente é mais complexa. Pode significar re­jeição se as palmas das mãos estiverem empurrando para fora; ou agressão, se os punhos estiverem cerrados; ou um pedido de esmola, se as palmas es­tiverem voltadas para cima. Como a posição de braços abertos, pode ser também um convite ao abraço, além de transmitir muitos outros sinais, de acordo com a posição das mãos.

Os sinais que envolvem os braços incluem ainda diversas formas de aceno e saudações. Quando uma importante figura feminina acena de um balcão, seu gesto pode ser visto de grande distância. Sua forma exata indica algo de seu estado de espírito. O aceno de uma rainha é um gesto de poder pacífico. A saudação de punho cerrado de uma líder rebelde, ao con­trário, é sinal de poder revolucionário. A saudação nazista era um gesto de rígida lealdade. A saudação militar — com os cotovelos flexionados e a mão tocando o quepe — é um gesto que estiliza a intenção de remover o elmo, um movimento de paz que visa cancelar o sinal de hostilidade. E por aí vai. Os braços são usados para transmitir sinais de longa distância, com menos precisão do que a que se pode transmitir com os dedos ou expres­sões faciais. Nesse sentido, os braços femininos funcionam como inestimá­veis bandeiras corporais.

No contato pessoal, o braço é quase sempre foco de ações amigáveis e assexuadas. Se quisermos ajudar uma pessoa idosa a atravessar a rua, nós a pegaremos pelo braço para guiá-la. Se orientamos alguém a passar por uma porta, nós a conduzimos com um leve toque no cotovelo. Se quere­mos chamar a atenção de alguém, tocamos seu braço. Se em qualquer des­ses casos tocássemos a cintura, o peito ou a cabeça, nosso gesto estaria ime­diatamente sob suspeita. Os braços são a parte mais neutra do corpo, sem qualquer significado íntimo. Sejam homens ou mulheres, amigos podem dar os braços quando caminham juntos, mas se houver qualquer outro to­que durante a caminhada, o gesto prontamente transmitirá um sinal de intimidade.

As tatuagens nos braços não têm sido raras, mas a forma mais comum de adorno sempre foi o bracelete. Como esse é um ornamento que sempre foi usado por mulheres, há quem acredite que esse costume teve origem como uma maneira de exagerar a forma delgada do braço feminino. Outra explicação seria que os braceletes e pulseiras atraem os homens porque são algemas simbólicas, sugerindo a escravidão da mulher pelo homem.

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Luiz Afonso Donati Pasko Perfumista e Pesquisador do uso de Feromônios Humanos Sintetizado em Laboratórios.
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